segunda-feira, julho 10, 2006

L E V E

A hora é um pouco antes e bem depois do momento mais desejado.
Ouve Chico. Sabe que o sonho é bom.
Está prestes a acordar quando descobre uma paixão prematura que se completa com o fogo quente que te queima a mão no fogão de seis bocas aceso na noite anterior.
Não se lembrava mais de nada que não a tivesse causado ferida na pele.
E de ferida na pele só lembrava daquela.
A felicidade dela estava olhando de longe. Ocupava uma estrada que de amarela só tinha o sol. E quando ele partia...acabava. e o fim era onda. E onda. E onda.
Só sabia pensar no aborto e no nada de não saber mais os significados das palavras que emergiam e queriam ser versos. E queriam ser canções.
Pensava nas borboletas amarelas, nas atrizes das quais ele falava e ela não conhecia, nos amores que não tinha
E fingia que queria escrever o mundo sem ter girado na roda gigante por medo precoce de alturas. Pelos olhos infantis do tombo que rasgou o joelho com roupa de ballet.
Não sabe do que ri.
"Faz cinema. Faz Cinema, sim. Ela é demais!"
Não sabe onde está.
Pensa em cama, em sofá.
Só quer traduzir para as letras as angustias roxas que rondam o anzol do peixe que não pescou na lagoa de cidade pequena cujo nome também não se lembra
e quando lhe vier à memória não mais importará.
Lhe falta amor de mãe que ela não sabe dar e não sabe Ter porque não mantém. E não tem. Não sabe porque nem o que reza. Nem reza.
Ela é assim. Pensa que será De Alguém mas não tem tato. Não possui com os dedos. Tem medo de pegar. Ainda está recente o choro no ventre, o nascimento com olhar e cabeludo – nasceu cabeluda.
Só escreve quando está imbuída de um sentimento que ultrapassa o limite da angustia e quer calar alguma coisa que parece que está fora. Mas ela sabe que está dentro.
Anda ganhando ilusões nas ruas da cidade grande e perdendo a razão de ser do interior. Quando retorna ao barquinho, sabe que o navio está partindo, e volta. Sem rumo. Lê para descansar os lábios da vida de se falar demais sem pensar, sem olhar de verdade e hipnotizar.
Todas as paisagens se foram com a senha que esqueceu para mandar o poema relativista.
Ganhou carta de mortos, escrita por vivos – uns que ama, outros que não, todos que a fazem sentir tocada, imagina. Quer uma correspondência em linhas retas. Que dirija um trabalho torto de menina sem desejo de crescer, com quinze anos e boneca barbie cantando xuxa sem saber que um dia sonharia com brad pitt e quereria que todos esquecessem das pastas e das fotografias suas. Ainda nuas de camisola ou roupão azul de banho.
Quer casar.
Quer um filho.
Quer acreditar um pouquinho mais que valeu a pena comer o prato inteiro de brigadeiro.
E se lembra só que escreve cartas uma vez por mês, mas não abre muitas portas todo dia. Só apaga as luzes da sala quando sai. Mas esquece o som ligado.
Sempre.
O que é que fica?

Um comentário:

Anônimo disse...

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