
Você começa. Eu espero , vou e sento.
Não é do tipo que encontra olhares com estranhos na rua. Mas ela sempre espera que um dia alguém que nunca tivesse visto a tocasse.
A pele morena manchada de pequenas milhares de sardas. Os olhos nunca quietos. Não pára. Nunca atravessa no sinal vermelho. Ela um dia gritou quando um homem sujo a olhou jogado no meio fio.
Não pode demorar muito, ela pensava.
E todos os devaneios que lhe vinham à mente, obcecados pala vontade docemente irritante de fumar a caixinha dourada de Carlton, transbordavam em vontade de dançar uma música qualquer. De qualquer dança que lhe fizesse sobrevoar um teto concreto. Ou de morango e maçã verde. Cada pulo era um cheiro transformando cada instante num passo em falso. Sinos ao longe. Sinal de alerta para seus olhos nunca quietos. Kiss me baby. O rádio estava sempre muito próximo.
Eu sempre critico. Acabo de criticar tudo que está acima destas linhas. O que distingue uma boa obra de uma que é lixo é que a primeira é como Roda Viva é como Guernica, a segunda como uma criança inalada de ópio. O amor, o sentimento, o continuar, a ilusão passageira. Ok. Ok. Mas eu volto a estória. O vento rodou num instante nas voltas do meu coração – ela berrou na esquina de sua casa. O cachorro havia fugido com árabes da Galiléia.
E continuo criticando. Desequilíbrios são tão óbvios nessas situações que não fazem efeito algum na estrutura formal do texto. Nem invocam paradigmas.
Tudo que ela fazia era dedicado ao cachorro ou ao ínfimo instante em que encontraria o príncipe encantado. Seria bom quatro paredes eu você e deus. Sempre procurava mas as palavras não existiam no dicionário. Seria bom. Há tempos tenta encontrar bons momentos ou ocasiões de olhar nos olhos. Dançava feito uma louca de bordel pela sala vazia e azul. Quase um aquário do seu peixe azul. Longe de ser o céu.
A história nunca termina, mas ela finaliza até o ponto em que percebe que tenta inventar personas. Até mesmo essa frase que era pra ser uma meta-linguagem nada disso é. Porque ainda sou eu. Eu mesma.
Não tem como. Sou eu mesma.
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